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sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

O Ato de compartilhar.

Penso que somente se nos debruçarmos sem preconceitos, vaidades ou pudores sobre os nossos sentimentos, gostos e interpretações podemos transformar as nossas vivências em (auto) conhecimento. Mas também é necessário verbalizar, materializar, pôr tudo isso “para fora”, revendo e reformulando alguns aspectos, transpondo para uma forma mais clara e precisa aquilo que, às vezes, intuímos ou percebemos de maneira difusa apenas. Escrever é, para mim, parte fundamental desse processo que, aliás, pode nos levar além da subjetividade pura e transformar nossas experiências em objeto do interesse de outros "viventes".

Se decidimos, por fim, dar à luz nossas reflexões (expor em galerias, gravar mídias digitais, produzir peças teatrais, publicar livros, artigos...) é pelo prazer do ato, por vaidade, solidão, necessidade, generosidade ou, como disse Jorge Luís Borges,

[...] publicamos para não passar a vida a corrigir rascunhos. Quer dizer, a gente publica um livro para livrar-se dele.

Na verdade, não importa! É o ato de compartilhar, muito mais do que a intenção, que dá sentido às coisas que realizamos.

Então, neste blog, pretendo “livrar-me” de algumas opiniões sobre livros, filmes, notícias, gostos, sentimentos, memórias e tudo aquilo que me leva a refletir.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Memórias Afetivas II. Epitáfio

Escrevo este post para homenagear um amigo, não é um amigo no sentido clássico da palavra (aquele por quem temos e de quem recebemos muito afeto e consideração, com quem compartilhamos momentos especiais das nossas vidas...), não, ele pertence a outra categoria: é o tipo de amigo que associamos à lembrança de certos eventos das nossas vidas, situações marcantes ou banais até, não importa: ele está lá, se não no miolo dessas histórias, muito perto, “colado” a elas.

Falo de algumas tardes solitárias de verão, e falo também de recordações de um período muito intenso da vida, quando tudo (e nada) era premente, arrebatador e definitivo; falo de algumas memórias afetivas que repasso até hoje.

Ao saber da sua morte repentina aos cinquenta e poucos anos, fiquei perplexo no início, depois levemente nostálgico e, por fim, misturando-se a isso, sobreveio um sentimento difuso de perda. Essa mistura de sensações, ainda sinto suave e indelével, toda vez que, remoendo aquelas cenas da vida, lá o encontro. Sinto também serenidade, pois se há vestígios de tristeza, não há de remorso ou rancor; fica apenas uma lembrança agradável e perene na memória.
No final, é o que conta.
Quero poder, um dia, ser lembrado assim também!

À memória de H.R.R.


terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Os Grandes Exploradores II

Além do Capitão Frederick Selous, outros tantos da mesma estirpe ajudaram a construir, pelos quatro cantos do mundo, a história do Império Britânico -a história do colonialismo, da aculturação e da exploração econômica. Bom, essa é uma “outra história”, parte fundamental, substrato, “daquelas histórias”, claro, mas não vou contá-la aqui.
O que eu estou contando aqui tem a ver com inquietação, paixão e obsessão como é o caso de Richard F. Burton (1821-1890). Muito ousado, Burton aventurou-se em meados do século XIX, disfarçado de afegão muçulmano -na época, sob o risco de vida- numa peregrinação a Meca (Arábia Saudita) e, pouco tempo depois, em uma vigem à cidade proibida (para não muçulmanos) de Harar (Etiópia). Essas explorações foram relatadas entre 1855 e 1856 em Pilgrimage to El-Medinah and Mecca” e “First Footsteps in East Africa”, respectivamente. Em 1857, planejou e realizou, juntamente com John H. Speke, mais uma grande façanha: a busca da nascente do rio Nilo, aventura que foi retratada também no cinema pelo filme “Montanhas da Lua, 1990”. O brilhante Sir Richard Francis Burton tinha profundo conhecimento das etnias e costumes da Ásia, África e Oriente. Segundo a Encyclopedia Britannica, aprendeu 25 idiomas, publicou 43 volumes sobre suas explorações e quase 30 de traduções incluindo uma, excepcional e sem expurgos, de “As Noites Árabes”, “Mil e uma Noites” como é mais conhecida. Foi, aliás, o autor da primeira tradução para o ocidente do “Kama Sutra”.
Há tantas outras figuras fascinantes: Sir Ernest Henry Schackleton (1874-1922), explorador do qual já falei no post  “A Maior Aventura de Todos os Tempos” ; Lt. Col. John Henry Patterson (1867-1947), o grande caçador dos “leões comedores de homens de Tsavo”; Col. Percy Harrison Fawcett (1867-1925), explorador e arqueólogo (segundo alguns, o verdadeiro Indiana Jones) que desapareceu misteriosamente durante uma expedição no Mato Grosso em 1925 e muitas outras, inclusive contemporâneas. Talvez fale sobre mais algumas em outros posts.
Enfim, sob a chancela e o financiamento de instituições como o Exército Britânico, a Royal Geographic Society, ou de empresas como a English East India Company e a British South Africa Company, estes homens atuavam na vanguarda expansionista: mapeavam regiões, analisavam suas potencialidades econômicas e os recursos naturais existentes,  estudavam os costumes e identificavam as vulnerabilidades. Na minha opinião, eram homens obstinados e diligentes que, aproveitando-se dos recursos e da influência do Império, colocavam em prática as próprias empresas em busca de fama ou simplesmente pelo fascínio por certos desafios. Eram, na essência, grandes aventureiros.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Os Grandes Exploradores

Na minha primeira, e única, visita ao Natural HistoryMuseum de Londres, após perambular pelo hall central durante algum tempo, distraidamente, fui subindo a escadaria que fica à esquerda da grande estátua de Darwin sentado numa poltrona, pensativo, e dá acesso ao primeiro andar do museu. No topo da escadaria, na parede que a acompanha à direita, está o memorial dedicado ao Capitão Frederick Courtney Selous. É composto por um nicho de granito que abriga o busto do Capitão, uma paisagem com leões em relevo na parte inferior e, nas laterais, as seguintes inscrições -tudo isso em bronze: caçador, explorador e naturalista, nascido em 1851, morto em ação [numa batalha contra tropas alemãs durante a I Grande Guerra] em Beho-Beho [atual Tanzânia], África oriental alemã em 4.1.1917.
As palavras “caçador” e “explorador” atiçaram a minha memória e a minha imaginação. Selous, caçador e explorador...! Havia algo lúdico e romanesco, que remetia a grandes aventuras em terras distantes... Nunca ouvira falar do Capitão antes, mas aquela imagem imponente -traje militar de campo com mangas arregaçadas, chapéu de abas largas colocado descuidadamente sobre a cabeça e um rifle entre os braços- , acolhida de maneira tão perfeita pelo ambiente do museu (cujo acervo é, praticamente, um inventário do Império Britânico, ou, ao menos, boa parte dele), lembrava estórias de Indiana Jones e Allan Quartermain de maneira irresistível. Aliás, conforme Wikipedia, foram as aventuras do Capitão Selous que inspiraram Sir Henry Rider Haggard a criar o personagem  Allan Quartermain. Fiquei empolgado e fui pesquisar.
A Encyclopedia Britannica diz o seguinte: ...caçador e explorador cujas viagens pela África Central e do Sul aumentaram substancialmente o conhecimento do país mais tarde conhecido como Rhodesia. Em 1871-1872, Selous viajou da Cidade do Cabo para Matabeleland onde recebeu permissão para caçar livremente. Por 18 anos, Selous explorou e percorreu o país entre o Transvaal da África do Sul e a bacia do rio Congo, coletou espécimes para museus de história natural e fez valiosas investigações etnológicas. Em 1890, ingressou no serviço da BritishSouth Africa Company onde foi decisivo para colocar o distrito fronteiriço de Manicaland (província do Zimbabwe) sob o controle britânico. Selous resumiu suas viagens em "Twenty Years in Zambesia", Geographic Journal (vol. 1, 1893). Ele também publicou um relato da guerra de Matabele, Sunshine and Storm in Rhodesia (1896), e African Nature, Notes and Reminiscences (1908).