Certa vez, ao explorar o grande canal que atravessava a sua metrópole, um diligente operário de uma prolífica comunidade descobriu a entrada para uma complexa rede de galerias subterrâneas, algo colossal que
se estendia até a parte alta da cidade. "Com alguma estratégia e muita determinação é possível tomá-la", pensou o
destemido explorador na ocasião. “Vê-se logo, pelo tamanho, que a instalação tem potencial e, a julgar pelo seu estado geral, está praticamente abandonada. No
futuro, poderá abrigar comunidades inteiras, centenas talvez, livrando-nos das frequentes inundações que assolam as partes baixas da cidade”.
Os habitantes dos subterrâneos, ainda bem jovens, são escolados
na intrincada rede de túneis que se espalha pelo subsolo, especialmente estes cuja
aventura começo a narrar. Embora alguns tenham a convicção de que com
certa dose astúcia e muita resiliência se possa aumentar significativamente as
probabilidades de sobrevivência, sabem todos muito bem que nestes sítios
superpopulosos as chances são pequenas para a maioria.
Algum tempo depois da promissora
descoberta, o nosso protagonista, a quem dou o nome de "R", reuniu algumas dezenas de bravos companheiros com
o objetivo de mapearem a região centímetro por centímetro, avaliando
potencialidades, vulnerabilidades e catalogando rotas de acesso. Após uns três meses de jornada, já tendo percorrido a maior parte daquelas
galerias, a expedição concluiu que a disponibilidade de alimentos ainda não era suficiente para sustentar sequer uma grande comunidade, mas que em breve seria, segundo
os dados levantados minunciosamente, era uma questão de tempo, de pouco tempo.
Se a vasta superfície a céu aberto é rica
e atraente, é também perigosa: os que habitam sobre o solo são especialmente
intolerantes à presença dos subterrâneos e os perseguem de forma
implacável. Além disso, a exposição à luz solar direta lhes torna o ambiente
muito insalubre; é apenas na superfície dos sítios mais remotos, onde o acúmulo
de rejeitos e a vegetação espessa proporcionam algum tipo abrigo, que eles
contam com uma permanência razoavelmente segura. Ali, normalmente terra sem
lei, a sua existência é tolerada, mas, ao final das contas, a vida sob a
superfície ainda é a opção mais adequada: os territórios são respeitados pela
maioria das comunidades e, se há superlotação, por outro lado, a geração de
alimentos ―resíduos
e caça―, ainda que não acompanhe o ritmo de crescimento da população, nunca se
esgota ou diminui. É o que se pode chamar de zona de conforto.
Diante da importância daquele novo território, uma questão crucial se impôs: “é necessário e urgente demarcá-lo e ocupá-lo, ainda que com um pequeno grupo, para
que se consiga garantir a posse”. Afinal, outros invasores não demorariam
muito a aparecer. Então, "R" tomou a seguinte decisão: enviou de volta à comunidade alguns dos seus exploradores com o objetivo de informá-la das novidades sobre o território, do seu potencial e das possibilidades de uma futura
ocupação. Os que
permaneceram trataram de fortificar o espaço, foram estabelecendo barreiras com sentinelas em vários pontos estratégicos. Os veios d’água, que carregavam
os resíduos com nutrientes, eram muito finos ainda, inclusive em
função de algumas obstruções decorrentes do acúmulo de materiais esquecidos durante
a construção daquelas redes. Foi, aliás, numa tentativa de desobstrução que o grupo
descobriu um pequeno acesso a uma fonte primária.
As fontes primárias localizam-se na
superfície, é a partir delas que os resíduos são gerados e, posteriormente,
jogados na rede. O consumo direto nestas fontes, antes de qualquer outro
processo, vale o considerável risco que representa, dada a grande concentração
de nutrientes que proporciona. O acesso àquela fonte era muito estreito,
permitia a passagem de apenas um indivíduo por vez. Lá em cima, na superfície,
o invasor estaria exposto à luminosidade, e a provável amplitude do ambiente também recomendava muita cautela. Além de tudo, a estreiteza do conduto dificultaria
muito uma fuga rápida caso fosse necessária. Todavia, o valente líder não hesitou, e tomou a iniciativa.
Protegido
pela escuridão e pela estreiteza do pequeno túnel de acesso, "R" começou a observar
detalhadamente o local. Era um depósito de alimentos, não havia dúvida; tinha
pequenas dimensões com pé direito muito baixo; a luminosidade era forte, mas
intermitente, e havia grandes períodos de penumbra. A
sala estava abarrotada de mantimentos espalhados pelo chão; ensacados, formavam
grandes montes, alguns, escorados precariamente nas paredes, atingiam a metade
do pé direito. O ambiente não era muito frequentado, apenas duas a três vezes
ao dia, mas com regularidade. Em um extremo do recinto, havia uma imensa
abertura sem qualquer obstáculo à passagem. Através dela, se podia ver outro
ambiente, este sim, mais amplo, perfeitamente iluminado e com intensa
movimentação. “O depósito pode ser invadido com boa segurança e, com alguma
habilidade, saqueado sem deixar pistas”, relatou "R" aos seus companheiros após um dia inteiro de observações.
As
chuvas chegaram abundantes naquele verão, e alagaram a parte baixa da
metrópole, tudo foi tomado pelas águas. Milhares ficaram desalojados e privados
de sustento nos subterrâneos. Enxotados pelas águas, muitos acabariam nas
partes altas da cidade.
A primeira incursão dos exploradores liderados por "R" no
depósito deu-se durante uma noite, quando apenas uma luz lavada penetrava pela janela
envidraçada próxima ao teto. Se a visão não era boa, os odores, em compensação, eram bem evidentes. Os cheiros misturavam-se no ambiente, destacando-se ora um aroma
frutado, ora outro mais terroso; às vezes um canto rescendia a um aroma herbal, enquanto outro, a um mais cítrico ... Este festival de odores marcantes remetia a
memórias ancestrais de tempos de fartura, memórias não vividas por eles, mas repassadas
de geração em geração. Aquela incursão cuidadosamente planejada já se
transformava num agradável passeio quando, como se um par de faróis fosse
acendido repentinamente, duas luzes levemente azuladas paralisaram o grupo cegando-os
momentaneamente. Um breve êxtase tomou conta de todos, as luzes pareciam
acender e apagar rapidamente em lugares diferentes deixando todos muitos confusos e
desorientados. Um imponente guardião, os havia surpreendido com o seu olhar hipnotizante; na verdade, ele já
observava os movimentos do bando há bastante tempo. Sutil e silencioso, contou
ainda com o festival aromático que o pequeno depósito proporcionava para camuflar-se.
Experiente, este guardião ―a quem chamarei de "G"― aprendeu ao longo da vida que, por mais forte e atento que pudesse ser, não
haveria como lutar sozinho contra as hordas famintas que viviam no subsolo. Ao
invés de desgastar-se em confrontos que não poderia vencer sozinho, estabelecia
acordos. Sob a sua supervisão, "R" e seu grupo teriam acesso ao depósito e a tudo que ali
houvesse desde que, com o mais absoluto e inegociável compromisso, aceitassem proteger o depósito contra outros invasores que viessem do subsolo.
Com o tempo, o bravo "R" passou a
admirar o seu senhorio pela civilidade e objetividade com que administrava o
esquema todo: de um canto do recinto, com o movimento tranquilo dos seus grandes olhos azuis, "G" acompanhava tudo discretamente, com ares de complacência até. Todavia, para o frio guardião aquele pequeno bando valia somente a porção de utilidade que
conseguia entregar, nada mais.
A
chuvas eram persistentes e abundantes. Na parte baixa da metrópole, fugiam todos em todas as direções; alguns
migravam para a superfície das áreas que ainda permaneciam secas em busca de
abrigo e alimento, outros, simplesmente, se deixavam levar pelas águas. Através
do canal a enxurrada trazia milhares ainda com vida até as novas galerias.
Embora nem todos conseguissem vencer as dificuldades impostas pelo traçado das
redes, uma quantidade muito grande avançava. A horda faminta segmentava-se a
cada bifurcação e progredia rapidamente através das várias ramificações. Nossos
exploradores não esperariam muito para confrontá-los: o som daqueles bandos
alastrando-se em todas as direções tomava conta das galerias, e ia aumentando a
cada minuto, aumentando também o tormento daqueles poucos encarregados de
proteger o território laboriosamente conquistado. As barreiras construídas,
incapazes de conter aquele fluxo, apenas criavam gargalos que fustigavam ainda
mais a massa desesperada. Muitos que ficavam pelo caminho eram pisoteados e desmembrados.
Enquanto as sentinelas recuavam para recompor forças nas proximidades da fonte,
o diligente líder orientava o seu grupo como podia.
Inesperadamente,
uma massa líquida e escura vinda da superfície começou a invadir as redes a uma
dezena de metros de onde o nosso destemido grupo se encontrava. O líquido, que se
vaporizava rapidamente ao entrar em contato com a matéria orgânica, escorria na
direção da horda invasora, aniquilando toda a vida que encontrava pela frente. Sob a
orientação de "R", os exploradores que recuavam começaram a penetrar no depósito através do
estreito canal; tentavam fugir dos vapores que lentamente se espalhavam.
Quando
"R" também atingiu a superfície do depósito, encontrou, para a sua
surpresa, o guardião realizando com toda a desenvoltura e sem qualquer pudor o
que o instinto de forma imperiosa ordenava. Chocado, o romântico explorador entendeu
rapidamente que nada é mais forte e contundente do que a verdadeira natureza
das coisas e, num impulso de desespero e raiva, pulou sobre o oponente arrancando-lhe completamente um dos seus grandes olhos azuis.
Em decorrência de um choque séptico, o Gato pragmático
morreu algumas semanas depois longe dali, enquanto o Rato idealista, agora mais cético
e definitivamente instalado no depósito, aguardava aguerrido pelo próximo
predador.