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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Histórias Curtas V. A natureza das coisas

Certa vez, ao explorar o grande canal que atravessava a sua metrópole, um diligente operário de uma prolífica comunidade descobriu a entrada para uma complexa rede de galerias subterrâneas, algo colossal que se estendia até a parte alta da cidade. "Com alguma estratégia e muita determinação é possível tomá-la", pensou o destemido explorador na ocasião. “Vê-se logo, pelo tamanho, que a instalação tem potencial e, a julgar pelo seu estado geral, está praticamente abandonada. No futuro, poderá abrigar comunidades inteiras, centenas talvez, livrando-nos das frequentes inundações que assolam as partes baixas da cidade”.
Os habitantes dos subterrâneos, ainda bem jovens, são escolados na intrincada rede de túneis que se espalha pelo subsolo, especialmente estes cuja aventura começo a narrar. Embora alguns tenham a convicção de que com certa dose astúcia e muita resiliência se possa aumentar significativamente as probabilidades de sobrevivência, sabem todos muito bem que nestes sítios superpopulosos as chances são pequenas para a maioria.
Algum tempo depois da promissora descoberta, o nosso protagonista, a quem dou o nome de "R", reuniu algumas dezenas de bravos companheiros com o objetivo de mapearem a região centímetro por centímetro, avaliando potencialidades, vulnerabilidades e catalogando rotas de acesso. Após uns três meses de jornada, já tendo percorrido a maior parte daquelas galerias, a expedição concluiu que a disponibilidade de alimentos ainda não era suficiente para sustentar sequer uma grande comunidade, mas que em breve seria, segundo os dados levantados minunciosamente, era uma questão de tempo, de pouco tempo.
Se a vasta superfície a céu aberto é rica e atraente, é também perigosa: os que habitam sobre o solo são especialmente intolerantes à presença dos subterrâneos e os perseguem de forma implacável. Além disso, a exposição à luz solar direta lhes torna o ambiente muito insalubre; é apenas na superfície dos sítios mais remotos, onde o acúmulo de rejeitos e a vegetação espessa proporcionam algum tipo abrigo, que eles contam com uma permanência razoavelmente segura. Ali, normalmente terra sem lei, a sua existência é tolerada, mas, ao final das contas, a vida sob a superfície ainda é a opção mais adequada: os territórios são respeitados pela maioria das comunidades e, se há superlotação, por outro lado, a geração de alimentos ―resíduos e caça―, ainda que não acompanhe o ritmo de crescimento da população, nunca se esgota ou diminui. É o que se pode chamar de zona de conforto.
Diante da importância daquele novo território, uma questão crucial se impôs: “é necessário e urgente demarcá-lo e ocupá-lo, ainda que com um pequeno grupo, para que se consiga garantir a posse”. Afinal, outros invasores não demorariam muito a aparecer. Então, "R" tomou a seguinte decisão: enviou de volta à comunidade alguns dos seus exploradores com o objetivo de informá-la das novidades sobre o território, do seu potencial e das possibilidades de uma futura ocupação. Os que permaneceram trataram de fortificar o espaço, foram estabelecendo barreiras com sentinelas em  vários pontos estratégicos. Os veios d’água, que carregavam os resíduos com nutrientes, eram muito finos ainda, inclusive em função de algumas obstruções decorrentes do acúmulo de materiais esquecidos durante a construção daquelas redes. Foi, aliás, numa tentativa de desobstrução que o grupo descobriu um pequeno acesso a uma fonte primária.
As fontes primárias localizam-se na superfície, é a partir delas que os resíduos são gerados e, posteriormente, jogados na rede. O consumo direto nestas fontes, antes de qualquer outro processo, vale o considerável risco que representa, dada a grande concentração de nutrientes que proporciona. O acesso àquela fonte era muito estreito, permitia a passagem de apenas um indivíduo por vez. Lá em cima, na superfície, o invasor estaria exposto à luminosidade, e a provável amplitude do ambiente também recomendava muita cautela. Além de tudo, a estreiteza do conduto dificultaria muito uma fuga rápida caso fosse necessária. Todavia, o valente líder não hesitou, e tomou a iniciativa.
Protegido pela escuridão e pela estreiteza do pequeno túnel de acesso, "R" começou a observar detalhadamente o local. Era um depósito de alimentos, não havia dúvida; tinha pequenas dimensões com pé direito muito baixo; a luminosidade era forte, mas intermitente, e havia grandes períodos de penumbra. A sala estava abarrotada de mantimentos espalhados pelo chão; ensacados, formavam grandes montes, alguns, escorados precariamente nas paredes, atingiam a metade do pé direito. O ambiente não era muito frequentado, apenas duas a três vezes ao dia, mas com regularidade. Em um extremo do recinto, havia uma imensa abertura sem qualquer obstáculo à passagem. Através dela, se podia ver outro ambiente, este sim, mais amplo, perfeitamente iluminado e com intensa movimentação. “O depósito pode ser invadido com boa segurança e, com alguma habilidade, saqueado sem deixar pistas”, relatou "R" aos seus companheiros após um dia inteiro de observações.
As chuvas chegaram abundantes naquele verão, e alagaram a parte baixa da metrópole, tudo foi tomado pelas águas. Milhares ficaram desalojados e privados de sustento nos subterrâneos. Enxotados pelas águas, muitos acabariam nas partes altas da cidade.
A primeira incursão dos exploradores liderados por "R" no depósito deu-se durante uma noite, quando apenas uma luz lavada penetrava pela janela envidraçada próxima ao teto. Se a visão não era boa, os odores, em compensação, eram bem evidentes. Os cheiros misturavam-se no ambiente, destacando-se ora um aroma frutado, ora outro mais terroso; às vezes um canto rescendia a um aroma herbal, enquanto outro, a um mais cítrico ... Este festival de odores marcantes remetia a memórias ancestrais de tempos de fartura, memórias não vividas por eles, mas repassadas de geração em geração. Aquela incursão cuidadosamente planejada já se transformava num agradável passeio quando, como se um par de faróis fosse acendido repentinamente, duas luzes levemente azuladas paralisaram o grupo cegando-os momentaneamente. Um breve êxtase tomou conta de todos, as luzes pareciam acender e apagar rapidamente em lugares diferentes deixando todos muitos confusos e desorientados. Um imponente guardião, os havia surpreendido com o seu olhar hipnotizante; na verdade, ele já observava os movimentos do bando há bastante tempo. Sutil e silencioso, contou ainda com o festival aromático que o pequeno depósito proporcionava para camuflar-se.
Experiente, este guardião ―a quem chamarei de "G"― aprendeu ao longo da vida que, por mais forte e atento que pudesse ser, não haveria como lutar sozinho contra as hordas famintas que viviam no subsolo. Ao invés de desgastar-se em confrontos que não poderia vencer sozinho, estabelecia acordos. Sob a sua supervisão, "R" e seu grupo teriam acesso ao depósito e a tudo que ali houvesse desde que, com o mais absoluto e inegociável compromisso, aceitassem proteger o depósito contra outros invasores que viessem do subsolo.
Com o tempo, o bravo "R" passou a admirar o seu senhorio pela civilidade e objetividade com que administrava o esquema todo: de um canto do recinto, com o movimento tranquilo dos seus grandes olhos azuis, "G" acompanhava tudo discretamente, com ares de complacência até. Todavia, para o frio guardião aquele pequeno bando valia somente a porção de utilidade que conseguia entregar, nada mais. 
A chuvas eram persistentes e abundantes. Na parte baixa da metrópole, fugiam todos em todas as direções; alguns migravam para a superfície das áreas que ainda permaneciam secas em busca de abrigo e alimento, outros, simplesmente, se deixavam levar pelas águas. Através do canal a enxurrada trazia milhares ainda com vida até as novas galerias. Embora nem todos conseguissem vencer as dificuldades impostas pelo traçado das redes, uma quantidade muito grande avançava. A horda faminta segmentava-se a cada bifurcação e progredia rapidamente através das várias ramificações. Nossos exploradores não esperariam muito para confrontá-los: o som daqueles bandos alastrando-se em todas as direções tomava conta das galerias, e ia aumentando a cada minuto, aumentando também o tormento daqueles poucos encarregados de proteger o território laboriosamente conquistado. As barreiras construídas, incapazes de conter aquele fluxo, apenas criavam gargalos que fustigavam ainda mais a massa desesperada. Muitos que ficavam pelo caminho eram pisoteados e desmembrados. Enquanto as sentinelas recuavam para recompor forças nas proximidades da fonte, o diligente líder orientava o seu grupo como podia.
Inesperadamente, uma massa líquida e escura vinda da superfície começou a invadir as redes a uma dezena de metros de onde o nosso destemido grupo se encontrava. O líquido, que se vaporizava rapidamente ao entrar em contato com a matéria orgânica, escorria na direção da horda invasora, aniquilando toda a vida que encontrava pela frente. Sob a orientação de "R", os exploradores que recuavam  começaram a penetrar no depósito através do estreito canal; tentavam fugir dos vapores que lentamente se espalhavam.
Quando "R" também atingiu a superfície do depósito, encontrou, para a sua surpresa, o guardião realizando com toda a desenvoltura e sem qualquer pudor o que o instinto de forma imperiosa ordenava. Chocado, o romântico explorador entendeu rapidamente que nada é mais forte e contundente do que a verdadeira natureza das coisas e, num impulso de desespero e raiva, pulou sobre o oponente arrancando-lhe completamente um dos seus grandes olhos azuis.
Em decorrência de um choque séptico, o Gato pragmático morreu algumas semanas depois longe dali, enquanto o Rato idealista, agora mais cético e definitivamente instalado no depósito, aguardava aguerrido pelo próximo predador.