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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

A Poesia da Vida II. O sol do meio-dia

Certa vez, olhando para o céu tive a vontade de escrever um post sobre o sol. Percebi imediatamente que seria muito difícil para mim falar da alvorada ou do crepúsculo e das paisagens que produzem, dos sentimentos que provocam, etc. Seria difícil abstrair algo que já não tenha sido cantado, declamado, desenhado e repetido. Falar dos equinócios e solstícios, dos seus poderes e temperos, achei muito complexo. Resolvi, então, falar de algo mais óbvio e contundente, "o sol do meio-dia".

No ponto mais alto da sua trajetória diária, na  hora em que é mais implacável -a hora em que as sombras se escondem debaixo dos seus objetos-, o sol me acolhe e abranda as aflições da alma. Neste momento abençoado, não há conflitos para mim, também não há inspiração, nada me é revelado, há somente a paz da solidão.

Sob o sol do meio-dia, me percebo imerso numa grande bolha de calor, onde flutuo só, entorpecido: fecho os olhos e apenas sinto o corpo transpirar sem tensão. Não penso em nada, não faço abstrações; deixo os pensamentos surgirem e, naturalmente, se dissolverem nesta atmosfera. 

Experimente! Mas, cuidado: quando -ao menor sinal de que o corpo se ressente- a bolha se desfaz, o sol acolhedor e dissolvente mostra-se, também, impassível e inclemente. 


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

A Poesia da Vida IV. Impressões

Certas percepções apreendidas pelos sentidos entregam experiências que vão além do óbvio. De um determinado sabor, textura, cheiro ou imagem, por exemplo, podemos abstrair sensações ou reflexões inusitadas, que transcendem a impressão imediata que o objeto nos entrega.

Por mais que a primeira sensação nos satisfaça, desperte imediatamente em nós boas lembranças e nos encharque de prazer ou admiração, às vezes, uma vivência mais profunda ou algo que apenas intuímos, também se revela.

A paisagem mais deslumbrante que conheço, por exemplo, encontra-se em Paris e só pode ser vista à noite com a Torre Eiffel iluminada. A elegância da velha torre contrasta lindamente com a escuridão do Campo de Marte e tamanha é a beleza da cena que me parece impossível descreve-la com inteireza.

Todavia, foi na cidade de Lisboa, às margens do Tejo, que tive um dos meus olhares mais inspiradores. De um mirante no alto do “Padrão dos Descobrimentos”, eu contemplava o estuário do rio e a magnífica vista dos arredores. Então, ao direcionar o olhar para a sua foz, a poucos quilômetros dali, um sentimento delicado de reverência e ancestralidade me fez esquecer da paisagem por alguns momentos: a imponência do Tejo no seu encontro com o oceano me fez pensar na história do povo que por ele navegava e no modo com que esta história, a partir dele, se unia à minha.

Anos depois, um trecho do poema “O Tejo É Mais Belo Que O Rio Que Corre Pela Minha Aldeia” de Fernando Pessoa resumiu com inspiração a ideia que tentei desenvolver nas linhas acima.

“... O Tejo tem grandes navios/ E navega nele ainda, / Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, / A memória das naus.../ Pelo Tejo vai-se para o Mundo. / Para além do Tejo há a América/ E a fortuna daqueles que a encontram. / Ninguém nunca pensou no que há para além/ Do rio da minha aldeia/ O rio da minha aldeia não faz pensar em nada...”

Quem leu “No Caminho de Swann” de Marcel Proust vai lembrar do trecho abaixo, que, aliás, integra uma das passagens mais famosas da literatura:

Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção da sua causa [...]. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. [...]

Naquele momento, o sabor do chá e do bolo fez um sentimento de felicidade ligado a lembranças esquecidas no fundo da memória emergir através de toneladas de reminiscências. Quem nunca experimentou algo semelhante ...!?

NOTA: o autor poderia ter usado o aroma de qualquer perfume da tia Leôncia ao invés do sabor do chá e do bolo, extrairia de lá impressões justificadamente mais complexas, porém, optou por algo menos óbvio e até mais encantador.

Para terminar, faço das palavras do personagem de Proust uma espécie de conclusão:

Mas quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas [...] o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação.