Marina acorda às sete horas na beira
da estrada sob um abrigo onde uma velha senhora aguarda um ônibus improvável.
A moça junta a sua mochila e ruma para oeste pela estrada vazia. Com o sol já
batendo forte às suas costas, caminha uns dois quilômetros até um posto de
gasolina fincado no meio do nada, pensa em tentar ali uma carona para Pantano
Grande.
Guiada por memórias que não são suas,
Marina vai à procura do passado, atraída mais pela aventura do que pelo próprio
passado. Ela tem vinte e um anos, mas aparenta
quinze ou dezesseis, e o seu um aspecto frágil desperta nas pessoas a impressão
de inocência e desamparo. Todavia, escolada na estrada, é bem decidida e astuta
quando precisa.
O posto tem apenas duas bombas, uma
para diesel e outra para gasolina, mas nenhuma estrutura de apoio do tipo que a
gente procura quando decide parar na estrada -exceto por um banco em frente às
bombas e um banheiro imundo ao lado de uma pequena loja onde vendem-se óleo
para motor, velas de ignição e algumas correias dentadas. Tudo isso sob uma
estrutura metálica com telhado de zinco já bem danificada. Ao lado das bombas, um
gauchinho muito simpático e faceiro se apresentou como gerente-frentista.
“Só pára aqui quem está mesmo sem combustível.”
Refletiu Marina.
Sentada no banco em frente às bombas,
ela vai mordendo um pedaço de pão que tirou da mochila enquanto conversa com o
gauchinho. Durante a conversa, convenceu-se de que seria melhor seguir adiante
e tentar a carona ao longo da estrada. Mal havia pensado na alternativa, um
casal de meia-idade estaciona o carro na bomba de gasolina.
“Que sorte!” Ela pensou com surpresa.
Os dois se movimentam ao redor do
veículo e Marina se aproxima discretamente: ela olha para a mulher com um
sorriso tímido, mais três ou quatro palavras embaladas por uma voz de menina e
pronto, conquista a sua carona.
Do assento traseiro do carro, em
silêncio, ela lança através da janela um olhar comprido e vago para o horizonte
enquanto vai remoendo alguns pensamentos sem se fixar em nada. Pequenas coxilhas,
vastos campos com longínquos capões de eucalipto, alguns açudes e gado esparso
vão passando repetidamente contra um céu azul e ela acaba adormecendo com a
monotonia do pampa.
Meio sonolenta, saltou em Pantano no
meio da tarde, agradeceu a carona e foi andando preguiçosamente até a
rodoviária. Decidiu que iria passar a noite ali, ainda carregava algum dinheiro,
e desejava comer algo substancioso, reconfortante.
Enquanto mastigava sorridente um
suculento pão com linguiça, desabava uma perfumosa chuva de verão que rescendia
a terra molhada e óleo diesel. A noite, que já se insinuava, encontrou Marina saciada
e adormecida num cantinho mal iluminado da rodoviária.
No dia seguinte, foi muito cedo para a
estrada, às dez horas já havia percorrido uns quinze quilômetros a pé e sob um
sol implacável. O seu destino era o município de Segredo.
“Dia péssimo para caronas.”
Quando sol já começava a empurrar as
sombras para debaixo dos próprios objetos, ela cogitou enfiar-se em algum
pedaço de mato perto da estrada, estava muito quente. Todavia, a perspectiva de
passar outra noite na estrada logo a deixou mais determinada: tinha que a chegar
a Segredo antes o final da tarde.
Sempre com pouco dinheiro, aprendeu
que certos pudores são caprichos inúteis para quem se aventura por aí. Mirando
um pequeno espelho d’água na beira da estrada, decidiu soltar o cabelo, abrir
dois botões da camisa e vestir o seu sorriso insinuante -e também um bocado
maroto graças aos seus ares de menina inocente.
Mais meia hora de caminhada e nada... De repente,
como que atendendo as suas preces a São Marcos, uma alma generosa guiando uma
picape parou.
“Milagre!” Disse olhando para o céu
com os braços erguidos enquanto corria até o veículo parado alguns metros à
frente.
Incólume, Marina desembarcou em
frente à prefeitura de Segredo após oito horas de jornada naquele dia. Ajeitou
logo a mochila nas costas, olhou ao redor e viu bem próximo os fundos do que parecia
ser um templo. “Deve ser a igreja de São Marcos.”
Foi até o local, parou bem em frente
à igreja e tirou do bolso uma fotografia ―a
recebera de presente há muito tempo, com a garantia de ser uma lembrança da sua
mãe― e
passou a olhá-la com bastante cuidado enquanto colocava lentamente a mochila no
chão. Subiu quatro degraus da pequena escadaria e procurou colocar-se no exato lugar
em que posou junto com a mãe, conforme lhe disseram, quando tinha três anos.
Esforçou-se para recordar de algo, olhou no entorno, pensou na mulher de
cabelos claros segurando-a pela mão na foto, fechou os olhos e, de repente, se
deu conta da Kombi azul com o teto branco em primeiro plano no canto direito da
imagem, não tinha dado importância a ela antes, mas era bem provável que
houvesse alguma ligação... Aos poucos, o cenário a sua frente começava a fazê-la
intuir algo de familiar, mas sem nenhuma lembrança concreta.
De volta à rua da prefeitura, seguiu
até um velho posto de gasolina que tinha notado logo que chegou a Segredo. Não
lembrava dele exatamente, mas também já lhe parecia familiar, podia apostar.
Pediu para usar o banheiro e aproveitou para perguntar sobre a tal Kombi. “Pergunta
estranha!” Pensou.
Sentiu-se um pouco tola, mas logo
ponderou que alguém certamente lembraria de uma Kombi azul e branca, se ainda
existisse alguma, afinal, um veículo como este e nestas cores, não seria tão
comum assim numa cidade daquele tamanho.
Enquanto conversava com o frentista,
notou, bem próximo, um grupo de garotos desocupados e muito jovens, que falavam
alto, gesticulando e rindo com afetação. Quando o frentista se afastou, um dos
garotos, um de ar debochado, se aproximou enquanto os demais, em silêncio, o
acompanhavam com um olhar de expectativa. Ele abordou Marina e saiu dizendo que
sim, que havia uma Kombi bem antiga com essas cores e, bem prestativo, indicou
o caminho até o seu paradeiro. Ela agradeceu e foi embora confiante.
Apesar do calor, uma leve brisa de
final de tarde prometia uma noite agradável. Desejou descansar e resolveu
deixar a busca para o dia seguinte, agora, precisava arranjar algo para comer e
um lugar para dormir.
Depois de rodar por alguns
quarteirões, acabou no sítio da igreja novamente. Ao lado da construção, havia
um terreno bem amplo com jeito de praça: tinha alguns bancos dispostos em
semicírculo sobre um piso de calcita branca e de frente para um pequeno jardim.
Atrás dos bancos, havia uma espécie de pomar com várias laranjeiras e um grande
abacateiro, todos com frutos.
No dia seguinte, com o nascer do sol,
despertou tomada por uma empolgação que não sentia fazia tempo; tudo corria
melhor do que o esperado, pensava enquanto caminhava apressadamente em direção
ao local indicado no dia anterior. Marina já estava completamente absorvida pela
experiência e se deixou seduzir pelas circunstâncias, por mais improváveis que
parecessem. Decorridos vinte minutos, chegou ao local que o garoto lhe havia indicado ―já
um pouco fora do perímetro urbano, a oeste da cidade. Atravessou uma rodovia e
parou em frente à porteira também referida pelo garoto no dia anterior. Olhou atentamente
para o campo do outro lado e percebeu que não havia sinais de ocupação ―de
gado ou de qualquer tipo de cultivo―, havia apenas os vestígios de uma
trilha sulcada pela passagem de algum veículo há muito tempo.
Pulou imediatamente a porteira sem se
preocupar com nada e seguiu na direção oeste pela trilha que já estava tomada por
um capim bem alto. Mais adiante, a uns cem metros mais ou menos, o caminho começava
a desviar-se para o norte, iniciando o contorno de um grande mato de aroeiras no
meio do qual corre o arroio que dá nome à cidade. Por entre os galhos, no topo das
aroeiras, já podia ver parte da cumieira de um telhado do outro lado e, na
medida em que ia percorrendo o perímetro do mato, as paredes de uma casa
construída sobre uma pequena coxilha também podiam ser avistadas onde o
arvoredo era mais aberto. De repente, num sobressalto, se deu conta de que um
cusco, daqueles que andam soltos pelos campos, poderia atacá-la ou alguém
poderia abordá-la de forma agressiva, afinal estava em uma propriedade privada;
mas, determinada, continuou em frente. A trilha e o mato acabavam logo mais
adiante em uma pinguela sobre o pequeno arroio.
Depois de atravessar a pequena ponte
improvisada, começou a subir a coxilha a sua frente, indo em sentido contrário
agora, para o sul, ao encontro da casa que avistara minutos antes.
À medida que se aproximava, foi
percebendo que não havia mais janelas nas aberturas da casa; do telhado, pouco
restava abaixo da cumieira e uma vegetação fechada e espinhosa, impossível de se
penetrar, já crescia dentro das ruínas. Aproximou-se mais um pouco e notou ao
lado da casa os restos de uma velha Kombi já tomados pelo capim.
“Mas nem azul é a desgraçada!” disse em
voz alta, indignada.
Imediatamente, lembrou do garoto do
posto ―o
de ar debochado―;
arremessou a mochila no chão com raiva e sentou-se na grama.
“Filho da puta...!”
Instantes depois, olhou novamente
para a foto que trazia no bolço da camisa e desatou rir-se, admirada com a
ousadia do rapaz. Repetiu mais uma vez: “filho da puta!”
Recomposta após alguns minutos, levantou-se,
acomodou novamente a mochila nas costas e seguiu para a estrada, queria estar
de volta a Pantano até o final da tarde.